11 de novembro de 2007

Lutero e as divisões do mundo

CEBI *

Fonte Adital -
Por Edmilson Schinelo
1. Em busca de uma história mais verdadeira

Há 500 anos, quando a Europa fundamentalista se lançava ao mar para conquistar novas terras, escravizando e exterminando povos indígenas e negros, muitas vozes se levantaram para denunciar o mau uso da religião. Mulheres e homens fizeram surgir, sob a ação do Espírito Santo, movimentos que ajudaram a recuperar o sonho do cristianismo primitivo.

Entre todas essas vozes, uma das que mais ecoaram foi a de um monge chamado Martinho Lutero. Com toda a sua fragilidade humana, com seus erros e acertos, Lutero conseguiu mostrar à Igreja de Cristo que estava na hora de "voltar a Jesus".

O papa Adriano IV, contemporâneo de Lutero, foi capaz de ler a ação do Espírito e assim escreveu a ele:

"Sabemos que, mesmo na Santa Sé, e desde muitos anos, muitas abominações foram cometidas (...). Faremos tudo para começar a reformar a corte de Roma, da qual veio todo o mal. É dela que sairá a cura, como dela veio a doença".

Infelizmente, o sucessor de Adriano IV não teve a mesma diplomacia. Lutero também foi se acirrando em suas posições e as rupturas se acentuaram. Disputas posteriores aumentaram as rivalidades, quase nunca permitindo, nem a católicos romanos nem a luteranos, registros históricos menos tendenciosos. Para a maioria dos romanos, Lutero transformou-se no semeador da discórdia, no culpado pelo surgimento de "outras igrejas não fundadas por Jesus Cristo". Para boa parte dos protestantes, Roma e seu poderio passaram a ser encarnação da besta do Apocalipse.

A inquisição condenou à morte Joana D’Arc, em nome da fé ela foi levada à fogueira. Mais tarde, a Igreja Romana reconheceu o seu erro e elevou Joana D’Arc à honra dos altares. No caso da Reforma, as feridas foram maiores, ainda não foi possível reconhecer todos os erros, de um lado ou de outro.

Algumas afirmações, entretanto, não podem continuar sendo repetidas. Não só por faltarem com a verdade, mas por não contribuírem para a construção da tão sonhada unidade.

2. Lutero dividiu a Igreja?

No ano de 450, sob o pretexto das discussões se Jesus tinha uma natureza (era só Deus) ou duas (a divina e a humana), houve a separação da Igreja Siriana. Em 1054, a Igreja de Constantinopla e a Igreja de Roma romperam as relações, excomungaram-se mutuamente, declarando-se inimigas. Uma chaga que até hoje não se curou. Isto para falar apenas das divisões maiores.

Cristãos e cristãs, de maneira geral, por desconhecimento histórico, continuam a repetir que Lutero foi o responsável pela divisão, sem reconhecer na verdade que, profeticamente, o que fez foi trazer à tona a divisão já existente. E ainda que acontecimentos posteriores viessem a provocar novas rupturas, é importante recuperar sua intenção inicial.

Lutero não falava em separar-se da Igreja de Cristo, mas em reformá-la. Daí o nome Reforma. Chegava aos seus ouvidos os mesmo apelos proféticos que trezentos anos antes, moveram Francisco de Assis: "Reconstrói a minha Igreja, que está em ruínas". E a reconstrução passa pela busca da unidade. É por isso que o próprio Lutero assim orava a Deus:

"Ó eterno e misericordioso Deus, Tu és do Deus da Paz, do amor e da unidade e não da discórdia e da confusão, que permites em teus justos julgamentos. Este mundo, ao se esquecer de Ti, tem se dividido e quebrado. Só Tu podes criar e sustentar a unidade.

(...) Concede, então, que voltemos à tua unidade e evitemos toda discórdia. E assim, sejamos de uma só vontade, um só conhecimento, uma só disposição e uma só compreensão sobre o fundamento de Jesus Cristo, nosso Senhor".

3. Lutero e a leitura da Bíblia

Também por desconhecimento, é costume ouvir, especialmente no mundo católico romano, a afirmação de que Lutero tirou sete livros da Bíblia. Isso não é verdade. Ao contrário, como grande teólogo que era, Lutero impulsionou um grande movimento de leitura e interpretação da Bíblia. A grande sede da Palavra de Deus foi diminuída não só pelas traduções que fez (o povo não sabia grego e hebraico e nem mesmo o latim), mas também pelos seus comentários exegéticos aos livros sagrados. É bom lembrar que a tradição romana proibia o manuseio da Bíblia para quem não fosse clérigo. Nem mesmo nos cursos de teologia incentiva-se o estudo da Palavra de Deus.

Lutero traduziu todos os livros, incluindo em sua edição também aqueles que não têm original em hebraico (chamados apócrifos em ambiente protestante ou deuterocanônicos no mundo católico). E não proibiu ninguém de utilizá-los.

Acontece que nem mesmo a Igreja de Roma tinha fechado a questão acerca do cânon, isso de dá apenas em Trento (1545-1577). Outros grupos reformados passarão a utilizar, como os judeus, apenas o cânon hebraico, mas isso não vem de Lutero. Dele, o que precisamos recuperar é o seu amor à Palavra de Deus.

4. Um bom conselho aos nossos governantes

Erasmo de Rotterdam, teólogo humanista muito admirado por Lutero, criticou fortemente o reformador quando este apoiou as atitudes dos príncipes alemães, que perseguiram com violência os movimentos camponeses que exigiam seus direitos. Ele estaria legitimando a opressão. Ora, o grande profeta da paz, Helder Câmara, apoiou o Golpe Militar de 1964, percebendo depois o seu erro. E ainda vemos hoje pastores e bispos apoiarem ações violentas contra os sem-terra.

Mas, se os príncipes alemães manipularam a intenção e o movimento de Lutero, é porque não ouviram sua própria voz. Certa vez, um príncipe pediu de Lutero alguns conselhos afim de que não agisse com tirania em relação a seu povo. A resposta de Lutero foi simples e, se fosse ouvida pelos governantes que se dizem donos do mundo, daria outros rumo a esse momento tão delicado de nossa história. Lutero lhe enviou como resposta um comentário ao Magnificat, com a seguinte introdução: "Se queres ser um bom governante, aprende da Virgem Maria. Ninguém como ela soube acreditar num Deus que derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes".

Façamos ecoar em nossos corações e em nossas relações o mesmo apelo! Só assim seremos capazes de reconstruir a unidade.


* Centro de Estudos Bíblicos

Alcântara vai ganhar o primeiro Banco Comunitário Quilombola




Fonte Adital -
Marcada pela pobreza e pelos altos índices de trabalho escravo, a população do município de Alcântara, interior do Estado do Maranhão, vai ganhar novas oportunidades para desenvolver suas potencialidades e alavancar a produção local. No dia 20 de novembro, Dia Mundial da Consciência Negra, será inaugurado, em Alcântara, o primeiro Banco Comunitário Quilombola.
A instituição fará parte da Rede Brasileira de Bancos Comunitários, que hoje já conta com 13 bancos desse tipo, sediados em quatro estados brasileiros. O Ceará, além de pioneiro, é o estado que concentra a maior partes desses bancos. Ao todo, são oito instituições implantadas nos municípios de Fortaleza, Santana do Acaraú, Palmácia, Paracuru, Maranguape, Maracanaú , Irauçuba e Beberibe.

Segundo Joaquim Melo, coordenador do Banco Palmas, sediado em Fortaleza, a meta é que até o final deste ano mais quatro bancos comunitários sejam implantados no Brasil. Para 2008, a previsão é de que pelo menos 50 bancos comunitários sejam criados no Nordeste do Brasil. A iniciativa parte da Rede Brasileira, juntamente com a Secretaria Nacional de Economia Solidária, ligada ao Ministério do Trabalho, que tem apoiado as instituições principalmente na capacitação de pessoal.

Valorizar o potencial de cada comunidade, dar oportunidade a pequenos produtores e produtoras, gerar renda, elevar auto-estima, promover o desenvolvimento local, criar novos empreendimentos. São ações desse tipo que fazem parte do cotidiano dos bancos comunitários brasileiros. Através deles, milhares de pessoas que antes não tinham acesso a linhas de crédito, hoje desenvolvem seu próprio negócio, gerando emprego e renda para outros pequenos produtores e produtoras da sua comunidade.

Geralmente criados a partir da iniciativa popular, os bancos comunitários têm como característica fundamental a gestão realizada pela própria comunidade. De acordo com a Rede Brasileira de Bancos Comunitários, para ser considerado banco comunitário a instituição deve ter como princípio a oferta de crédito visando, principalmente, ao fortalecimento da produção e do consumo locais.

"Não basta oferecer crédito", diz Joaquim Melo. Para o Banco Palmas ser instalado, por exemplo, a Associação de Moradores do Conjunto Palmeiras, bairro com 30 mil habitantes na periferia de Fortaleza (Ceará), planejou uma forma de criar no bairro um grupo de "próssumidores", ou seja, pessoas que ao invés de apenas consumir também produzissem. A partir dessa idéia, a Associação criou, em 1998, o Banco Palmas.
A instituição, ao invés de apenas oferecer crédito para as pessoas pagarem as contas atrasadas, estimulava a produção de pequenos artefatos que pudessem ser vendidos dentro da própria comunidade. O objetivo era garantir micro-créditos para produção e o consumo local, a juros muito baixos, sem exigência de consultas cadastrais, comprovação de renda ou fiador.

No Banco Palmas, não existe SPC, Serasa ou consulta de cheque. Quem dá o aval de confiança do tomador de crédito são os próprios vizinhos. São eles que garantem a boa fé daqueles que pedem empréstimos ao Banco, assumindo se a pessoa é responsável ou não. Na hora de cobrar, também são os vizinhos que entram em ação ajudando o Banco a arrecadar o dinheiro de volta.

Para fazer com que o dinheiro circulasse dentro da própria comunidade, foi criada a moeda social Palmas. Com ela, a população começou a ter acesso ao consumo em diversos estabelecimentos do bairro, o que deu impulso à economia local. De mercadinhos a transporte coletivo, todo o comércio do bairro passou a ser feito através do Palmas. A circulação é livre no comércio local e, geralmente, quem compra com a moeda social recebe um desconto promovido pelos comerciantes e produtores e produtoras para incentivar o uso da moeda.

Partindo de um capital de R$ 2 mil, emprestado para cinco pessoas, o Banco Palmas tem atualmente uma carteira ativa de R$ 300 mil e já conta 1.400 clientes. Em quase dez anos de criação, o banco já financiou pelo menos 220 empreendimentos do bairro, permitindo com que hoje a população local produza pelo menos 5% do que consome.

Com os créditos obtidos no Banco Palmas, a comunidade do Conjunto Palmeiras já criou inclusive uma grife própria de confecção: a Palmafashion, que já conta com 22 empregados. Além dela, já foram criadas também no bairro a Palmalimpe, de material de limpeza, com cinco empregados; a Palmacouros, de bolsas e cintos com três empregados; a Palma Limpeza de Ambientes, de serviços de limpeza com sete empregados; a Palmart, de artesanato em tecido com seis empregados; e a PalmaNatus, produzindo sabonetes e remédios naturais com três empregados.

Organizações pedem aos chefes de governos que condenem a tortura


Fonte Adital -
A Rede Latino-Americana e do Caribe de Instituições de Saúde contra a Tortura, a Impunidade e Outras Violações aos Direitos Humanos, junto com outras 33 organizações sociais da América Latina, pedem aos líderes políticos que estão reunidos, de 8 a 10 de novembro, na XVII Cúpula de Chefes de Estado e de Governo, realizada em Santiago do Chile, a condenar a tortura e solicitar o fechamento da prisão de Guantánamo, em Cuba.
Na carta, as organizações condenam energicamente todas as formas de abuso, tortura e outros tratos cruéis, desumanos e degradantes contra as pessoas, incluindo os prisioneiros de guerra, em qualquer lugar que ocorram. Eles reiteram também a obrigação dos Estados de promover e proteger todos os direitos humanos, civis, culturais, econômicos, políticos e sociais, incluindo o direito ao desenvolvimento, "que são interdependentes e inter-relacionados e cuja universalidade é inquestionável", segundo o posto na Declaração de Chefes de Estado da Iberoamérica, em Margarita, Venezuela, em 1997.

Nas propostas aos líderes, os manifestantes pedem aos chefes que "assumam o compromisso decidido de erradicar a tortura nos países latino-americanos, promovendo uma legislação adequada que sancione e previna a tortura, de acordo com os tratados e convênios internacionais que proíbem a tortura.

Outra proposta é o fechamento imediato do cárcere de Guantánamo, onde, segundo eles, se encontram pessoas submetidas sistematicamente a torturas físicas e psicológicas. Eles pedem que sejam atendidos os chamados urgentes de instituições como o Comitê Contra a Tortura das Nações Unidas e os Relatores Especiais das Nações Unidas contra a Tortura, a Independência de Juízes e advogados, a Liberdade de Religião, o Direito à Saúde Física e Mental e a Detenção Arbitrária, quem recomendou reiteradamente que, deve "fechar-se imediatamente o Centro de Detenção de Guantánamo".

As organizações solicitam também que se inclua na Declaração final da XVII Cúpula Iberoamericana de Chefes de Estado e de Governo uma condenação à prática de tortura, um compromisso expresso de erradicá-la do continente e de punir todas as pessoas responsáveis por estes crimes, assim como a constituição de programas de prevenção deste flagelo e de reabilitação e compensação à vítimas, suas famílias e comunidades.

Para os assinantes da carta, estes abusos constituem crimes internacionais de "lesa humanidade", contrários ao direito internacional, que têm importantes repercussões na família da vítima e sua comunidade, o que incide negativamente no desenvolvimento o humano e na coesão social.

10 de novembro de 2007

Organizações pedem suspensão de plantio de eucalipto no sul da Bahia




Fonte: Adital
Entre os dias 7 e 8 de novembro, o Governo da Bahia, empresas e movimentos sociais participaram de um seminário que discutiu os impactos da plantação de eucalipto no sul e extremo sul do estado. Após ouvirem denúncias de crime ambiental, as organizações sociais pediram a suspensão do plantio de eucalipto até que se faça um zoneamento econômico-ambiental na região.

O evento, que ocorreu em Porto Seguro, foi organizado pelo governo estadual. O seminário é fruto de reivindicações dos movimentos que há muitos anos denunciam os abusos das empresas que produzem celulose na região (Aracruz, Suzano e Veracel).

Participaram quase 300 pessoas - sendo a maioria delas representantes de sindicatos, assentamentos e acampamentos rurais, povos indígenas, quilombolas, CPT, MST, Cepedes, Cimi e outras organizações.

No início do evento, técnicos da Secretaria do Meio Ambiente apresentaram dados comprovando que as empresas cometiam irregularidades. Por exemplo, as empresas apresentam em seus documentos reservas ambientais que não existem. O representante do Ministério Público Federal, Sérgio Mendes, confirmou as denúncias e disse que o MPF já está agindo para impedir esses crimes ambientais.

As plantações também foram criticadas pelo representante dos municípios da região. O secretário do meio ambiente de Itapebi disse que a Veracel construiu uma fábrica no lugar onde havia uma vila de moradores na cidade. "As empresas chegam com promessas de empregos que não são cumpridos", lembrou.

O padre José Koopmans, que há 20 anos pesquisa a questão do eucalipto na região, falou de outros impactos deste monocultivo, como a expulsão de comunidades tradicionais (indígenas, quilombolas...), esvaziamento de feiras, secas de rios e doenças causadas pelos agrotóxicos. Emocionado, ele cobrou uma posição do governo, que deveria levar a sério o clamor do povo.

Além de pedir a suspensão do plantio de eucalipto, as 35 organizações socais presentes encaminharam diversas reivindicações ao governo como demarcação de terras indígenas e quilombolas na região, reforma agrária e incentivos à agricultura familiar.

Fonte: Cimi

Medo e a insegurança "asfixiam" moradores das favelas




FOnte: Adital

A vida dos moradores das favelas cariocas, afetada diariamente pelo medo e a violência causados pelo tráfico e pela atuação despreparada da polícia nesse combate, é o tema estudado na pesquisa "Rompendo o cerceamento da palavra: a voz dos favelados em busca de reconhecimento", coordenada pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e Instituto Universitária de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). A pesquisa foi realizada com 150 moradores, de 45 favelas cariocas, entre 2005 e 2007, em uma tentativa de romper a "lei do silêncio" nas comunidades quando o assunto é violência.

O que os pesquisadores mais ouviram foram críticas generalizadas à atuação policial nas comunidades, que as operações não distinguem "pessoas de bem" de "marginais". Os pesquisadores entrevistaram moradores em 15 grupos focais e em três favelas de diferentes perfis - uma tida como "tranqüila" (sem tráfico nem grandes operações policiais), outra violenta e uma terceira onde há a presença de grupos de milícia (os nomes das comunidades não podem ser identificados por motivo de segurança) - foram feitas entrevistas em profundidade com moradores quinze moradores.

Os moradores das comunidades entrevistadas convivem com uma "sociabilidade violenta", na qual a vida de todos, mas a especialmente a dos jovens, sofre interferências significativas, existindo até horários e espaços permitidos, ou proibidos. O medo e a insegurança das pessoas que vivem nessas áreas de extrema violência levam-nas a uma situação de "asfixia", pois nada pode ser falado, e faz com que elas deleguem, mesmo que implicitamente, aos policiais poder para atuar nesses territórios indo além do uso da "força comedida" que é sua função institucional.

No entanto, embora os moradores queriam polícia e segurança nas favelas, segundo a Pesquisa, eles consideram imprescindível "uma mudança profunda nas atividades policias de rotina e o fim das "operações". Os entrevistados criticaram a inação policial nos postos situados nas localidades e a corrupção dos agentes e deixaram claro que, mesmo com está "delegação" de permissão para a atuação policial, os moradores continuam sem confiar na polícia e nas instituições estatais.

Em relação à presença de traficantes nas comunidades, a posição dos moradores é de que essa é uma convivência "forçada e não desejada", permeada pela violência, arbitrariedade e brutalidade. Muitos dos entrevistados têm parentes que de alguma maneira atuam no esquema do tráfico, mas procuram manter-se distante deles. A distância dos que atuam na criminalidade é buscada tanto nos espaços público, quanto dentro das próprias favelas.

Há um permanente esforço dos moradores para enfrentar o preconceito contra quem mora nas favelas, eles querem "provar ao restante da população da cidade que são pessoas "de bem", honestas, confiáveis, pacíficas e sem participação ativa na "sociabilidade violenta" ". Mas têm que conviver com a desconfiança, explicitada nas atuações policiais, "são recorrentes e intensas as reclamações quanto às diferenças de tratamento no "asfalto" e na "favela", o que é atribuído aos estereótipos e preconceitos".

Dentro das próprias favelas a desconfiança enfraquece os laços sociais e a comunicação baseada em relações de vizinhança, dificultando a construção das bases para uma ação coletiva orgânica e bem focada. Para os pesquisadores, "a ação coletiva depara-se com a dificuldade de formular reivindicações sobre assuntos relacionados à segurança nesses territórios e mobilizar o apoio dos moradores, dificultando sua inserção nas agendas de debates do espaço público".

O estudo desmente o mito de que os traficantes substituem o Estado nas favelas, "embora seja verdade que a presença deste último nestas áreas não é igual à do restante da cidade".O fato de os bandos de traficantes subjugarem os moradores, não significa que o tráfico é um substituto do Estado nas favelas.

Para os pesquisadores, as "milícias" - grupos paramilitares compostos em geral por policiais da ativa ou ex-policiais, bombeiros, muito bem armados, e que nos últimos anos estão se fortalecendo na cidade -, dão aos moradores uma sensação de segurança pessoal que disfarça as coerções que sofrem, pois com o pretexto de impedir a presença dos traficantes, elas constroem verdadeiras organizações econômicas, com a cobrança de proteção e o monopólio de algumas atividades locais (transporte alternativo, comércio de bujão de gás, distribuição de sinal roubado de televisão a cabo, etc.).

8 de novembro de 2007

As mudanças do jornalismo ambiental

Brasil - As mudanças do jornalismo ambiental

Fonte - Adital
Entrevista especial com Wilson da Costa Bueno
As primeiras coberturas específicas do jornalismo ambiental foram feitas após a Segunda Guerra Mundial, quando a questão do meio ambiente ganhou relevância global. Passados mais de quarenta anos desde as primeiras coberturas e reportagens, a prática do jornalismo ambiental ainda engatinha no Brasil. As notícias publicadas estão, direta e praticamente, ligadas apenas à mobilização da sociedade acerca do tema, mas, ainda assim, as ONGs enfrentam dificuldades para publicar seus manifestos e opiniões em todo o País. É nas mídias mais alternativas, como a internet, que o jornalismo ambiental tem maior espaço. Sobre este assunto, a IHU On-Line conversou, por e-mail, com Wilson Bueno. Ele falou sobre o desenvolvimento científico e teórico em relação ao jornalismo ambiental no Brasil, de como deseja mudar a forma como o País trata a prática e de como a questão do meio ambiente deveria ser tratada pela mídia brasileira.

Wilson da Costa Bueno é graduado em Comunicação e especialista em Comunicação Rural, pela Universidade de São Paulo (USP), onde também realizou o mestrado e o doutorado em Comunicação. Atualmente, é professor da Universidade Metodista de São Paulo e diretor executivo da Contexto Comunicação e Pesquisa.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Para o senhor, como está o desenvolvimento científico e teórico em relação ao jornalismo ambiental no Brasil?
Wilson Bueno - O jornalismo ambiental tem, gradativamente, mudado de patamar em relação à qualificação da cobertura, mas ainda encontramos desafios imensos a serem vencidos. Não dispomos, no caso da mídia impressa, de veículos com penetração nacional e dependemos, portanto, para o nosso diálogo com a sociedade dos veículos regionais e locais. Com raras exceções, não há jornalistas capacitados na área nesses veículos e, com isso, a cobertura ainda é precária. Na televisão e no rádio, tem havido algumas mudanças importantes (cito os casos da Globo News, com o excelente trabalho feito pelo André Trigueiro [1], e os do Repórter Eco [2], da TV Cultura, entre outros), mas ainda o meio ambiente é visto como espetáculo, o que é típico da mídia eletrônica. As mídias ambientais, pelo menos as legítimas, têm cumprido um papel importante, especialmente na Web, mas em geral tem atingido pessoas já despertas ou comprometidas com a temática. As universidades ainda não acordaram para a formação na área e há poucos cursos (uns cinco no máximo) na graduação e raras linhas de pesquisa ou projetos na pós-graduação. Mas aposto que a situação deve mudar nos próximos anos, se nós fizermos o trabalho bem feito e não assumirmos o meio ambiente como mais uma pauta que dá audiência.

IHU On-Line - Alguns de seus alunos afirmam que o senhor deseja mudar a forma como o jornalismo ambiental é feito no Brasil. O jornalismo ambiental brasileiro é fragmentado? De que forma ele precisa ser melhorado?
Wilson Bueno - O jornalismo ambiental precisa mudar por vários aspectos. Em primeiro lugar, não se pode praticar o jornalismo ambiental sem compromisso, apostando numa pretensa neutralidade, objetividade etc. Em segundo lugar, o jornalismo ambiental não pode focar-se apenas no aspecto técnico, porque o importante, se quisermos efetivamente trabalhar para a solução dos problemas, é perceber as conexões entre o meio ambiente, a política, a economia, a cultura, a saúde e a sociedade. Esta perspectiva fragmentada, que vem a reboque da cobertura de grandes catástrofes, não contribui para fortalecer o jornalismo ambiental, apenas o coloca na agenda, sem comprometer-se com um debate sério, abrangente, como deve ser. Finalmente, o jornalismo ambiental deve atentar para os grandes interesses que rondam essa área e ter em mente que existe na prática a chamada praga do marketing verde.
Trata-se de uma estratégia de comunicação e de marketing bem orquestrada, sob a responsabilidade de determinadas empresas e segmentos industriais (agroquímica, celulose e papel, biotecnologia, petroquímica, mineração etc), que têm como objetivo manipular a opinião pública e escamotear o problema, que é dramático. Quando se identifica uma empresa como a Monsanto (3), presente em nossas escolas, patrocinando uma educação ambiental transgênica; quando se observa a invasão das agroquímicas nos cursos de Agronomia e o lobby poderoso das corporações para que os seus interesses continuem prevalecendo em detrimento do interesse público, não se pode ficar calado. Não queremos que o País se transforme num canavial ou numa imensa plantação de eucaliptos.

IHU On-Line - Como o jornalista ambiental deve contextualizar a população sobre esse modelo desenvolvimentista?
Wilson Bueno - O jornalista deve trabalhar adequadamente os conceitos (plantação de eucaliptos não é floresta, nunca será; as mineradoras não produzem minério, apenas o extraem e assim por diante), evitar o sensacionalismo presente na cobertura das catástrofes ambientais, cada vez mais comuns, buscar fontes independentes, valorizar o conhecimento tradicional, denunciar os lobbies e ficar atento à ação de agências e assessorias que fazem o trabalho sujo de limpeza de imagem de empresas predadoras. O jornalista não pode ficar em cima do muro. Ele deve tomar partido, porque, afinal de contas, o Planeta está mesmo sendo destruído, aqui e lá fora. A farsa da redução do desmatamento no Brasil, as soluções cosméticas e cínicas que pregam a neutralização do carbono como aval para a continuidade da poluição, o uso indiscriminado de agrotóxicos e o cinismo de empresas como a Monsanto (transgênicos vão mesmo matar a fome ou encher o bolso de seus acionistas?) precisam ser denunciados. Temos que defender uma perspectiva plural, não transgênica, não celulósica, não agroquímica. O jornalista precisa esclarecer a população sobre o mito do desenvolvimento sustentável e colocar a mão na ferida: o modelo de desenvolvimento é insustentável e pronto e não há saída se não usarmos o bisturi. Com mertiolate e band-aid, a sangria não estanca.

IHU On-Line - A cobertura sobre meio ambiente na imprensa brasileira tem crescido, pautada principalmente por temas polêmicos, como transgênicos, mudanças climáticas, biodiversidade e biopirataria. De que forma as mudanças climáticas têm sido abordadas pela mídia nacional e internacional?
Wilson Bueno - A imprensa já fez o seu papel, alertando para os problemas relacionados com as mudanças climáticas, e agora precisa encaminhar bem o projeto para sua solução. Não é plantando árvores depois de poluir o mundo (a campanha da Ipiranga é terrível, porque quer vender gasolina usando o apelo ecológico!) ou apostando que haverá no futuro uma solução tecnológica para a crise que ela irá contribuir para o debate. Não é fazendo apologia do carro biocombustível (quando as pessoas continuam enchendo o tanque com gasolina) ou comendo docinho orgânico que o mundo será salvo. Essa solução fácil, sem dor, não existe e a imprensa precisa trabalhar esta questão de maneira direta. Com neutralidade, não dá. Infelizmente, ela tem recorrido, sobretudo, a fontes comprometidas com os grandes interesses (inclusive pesquisadores financiados pelas corporações) e enreda-se na armadilha que ela mesma tem criado. Ela precisa abrir a pauta, ouvir as ONGs, conversar com os cidadãos, colocar o pé na estrada e ver o que anda acontecendo com as nossas florestas, o cerrado, o mar, os rios etc. Jornalismo ambiental de gabinete não funciona: é, como nós dizemos em São Paulo, frescura. Talvez alguém queira nos convencer de que isso é que neutralidade jornalística.

IHU On-Line - Qual é a sua opinião sobre os fóruns locais sobre o meio ambiente? São formas de informar e chegar mais próximo da população ou também fragmentam a informação?
Wilson Bueno - Sim, dependendo evidentemente de quem organiza os fóruns locais (se for a Bayer [4], a Monsanto ou a Aracruz [5] será um horror!), mas o importante é que esta discussão seja mesmo feita localmente, envolvendo a comunidade, tratando, sobretudo das questões que a afligem.

IHU On-Line - O que as pessoas entendem e pensam sobre meio ambiente?
Wilson Bueno - Ainda muito pouco porque os conceitos (sustentabilidade, desenvolvimento sustentável, agrotóxicos, transgênicos etc.) são mal trabalhados pela mídia e a educação ambiental ainda não ganhou a dimensão devida. A televisão continua fazendo a apologia do consumo não consciente (haja baterias de celulares e fast food!), e as empresas mantêm sua disposição de ludibriar a opinião pública com seus produtos e posturas insustentáveis. É preciso que fique claro: agrotóxico é veneno e não remedinho de planta; plantação de eucalipto não é floresta, porque afronta a biodiversidade e só serve para atender a objetivos comerciais e transgênico usa pesticida, herbicida "pra burro". O jornalismo ambiental tem um papel importante e esperamos que ele cumpra esse papel. Afinal de contas, a sociedade e a legislação não delegaram privilégios aos jornalistas (como o diploma e a exclusividade do exercício) para que eles façam o jogo do bandido. Jornalismo ambiental e qualquer jornalismo exigem compromisso com o interesse da comunidade. O resto é balela, conversa para boi dormir ou para engordar os lucros de empresas predadoras. Que o governo também assuma o seu papel e não continue utilizando o meio ambiente como plataforma política. Olho vivo com parlamentares verdes (o Partido Verde já amarelou faz tempo!) e com empresas que se proclamam ambientalmente responsáveis. Abaixo o marketing verde!

Notas:

(1) André Trigueiro é um jornalista brasileiro especializado em Jornalismo Ambiental. É repórter e âncora da Globonews. Possui pós-graduação em Gestão Ambiental, pela COPPE/UFRJ. É professor e um dos criadores do curso de Jornalismo Ambiental da PUCRio. É autor do livro Mundo sustentável: abrindo espaço na mídia para um Planeta em transformação (Editora Globo, 2005).

(2) O Repórter Eco é uma revista semanal, atual, especializada em meio ambiente. Aborda, de forma aprofundada, pesquisas para o desenvolvimento sustentável e conservação dos biomas brasileiros, proteção da rica diversidade biológica e cultural do País, projetos para manter para o futuro os recursos hídricos, estudos de controle da poluição do ar, solo, terra e água, ecologia urbana, fontes de energia alternativas e renováveis, astronomia, antropologia, arqueologia, arquitetura ecológica, redução, reuso e reciclagem de resíduos sólidos, comércio justo, patrimônio histórico, cultural e arquitetônico e ecoturismo. Além da revista semanal, são produzidos programas temáticos a partir de viagens nacionais e internacionais. O Repórter Eco mantém um quadro específico de reportagens sobre a biodiversidade brasileira.

(3) A Monsanto é uma indústria multinacional de agricultura e biotecnologia. Seus produtos e suas agressivas práticas legais e de lobby têm feito da Monsanto um alvo primário do movimento antiglobalização e de ativistas ambientais.

(4) A Bayer é um conglomerado farmancêutico alemão, conhecido por ser o fabricante da Aspirina.

(5) A Aracruz Celulose é a maior produtora mundial de celulose branqueada de eucalipto, respondendo por 27% da oferta global do produto. Possui uma unidade fabril de Aracruz, em Guaíba no Rio Grande do Sul e em Eunápolis, na Bahia. A Aracruz é criticada internacionalmente por ativistas de movimentos sociais por ocupar terras de povos indígenas e quilombolas. Também é criticada pela poluição das águas e do ar e por causar poluição devido a dioxinas, material cancerígeno gerado pela produção de celulose..


* Instituto Humanitas Unisinos

Conjutura nacional aponta para uma política anti-indígena




Fonte - Adital
Uma análise realizada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) concluiu que cerca de 80% do contexto político-sócio-econômico brasileiro em 2007 foi desfavorável à população indígena. Reunido entre os dias 3 e 7 de novembro, em Luziânia, no Estado de Goiás, o Conselho do Cimi tomou como base para a avaliação políticas públicas que têm afetado negativamente a população indígena, além de ações praticadas por fazendeiros, usineiros e madeireiros de regiões próximas às aldeias.
Um dos dados mais alarmantes é o número de assassinatos entre a população indígena. Segundo a análise, até o início do mês de novembro de 2007, foram assassinados 58 índios, sendo 36 deles no estado do Mato Grosso do Sul. Além disso, as aldeias continuam sendo "atacadas por bandos armados a mando de madeireiros, agredindo comunidades, queimando casas e assassinando pessoas", informou o Cimi.

De acordo com o vice-presidente do Cimi, Roberto Liebgott, o povo Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, é um exemplo da precariedade em que se encontram diversos povos indígenas do Brasil. A comunidade hoje é marcada por altos índices de violência, além de sofrer intensamente com a negação de seus territórios, totalmente invadidos, onde imperam a desestruturação das comunidades, os suicídios, os assassinatos, as enfermidades, a mortalidade infantil por desnutrição, o alcoolismo e o uso de drogas.

Na análise, o Cimi aponta o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), carro-chefe do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como um dos maiores prejuízos para os territórios indígenas. Constituídas por diversas obras de infra-estrutura, as ações do PAC atingem pelos menos 201 territórios e ameaçam a vida de comunidades indígenas, inclusive de 21 povos nunca contactados pela sociedade.

Segundo Liebgoot, a região Amazônica é uma das áreas mais afetadas pelas obras do PAC. A construção de estradas e hidrelétricas, diz o vice-presidente, ocupam territórios tradicionais indígenas, obrigando os índios a se deslocarem de suas próprias terras. Outro fator preocupante é a ocupação de extensas faixas de terras que têm sido feita por papeleiras para o plantio monocultor, principalmente de eucaliptos.

Políticas antiindígenas foram detectadas também nas iniciativas parlamentares, como as inúmeras proposições legislativas contra portarias declaratórias e a instalação de comissão especial que discutirá o projeto de lei n.º 1610, do senador Romero Jucá, que pretende regulamentar a mineração em terras indígenas, apesar de haver um acordo no âmbito da Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI) para que este tema seja tratado no projeto de lei que institui o Estatuto dos Povos Indígenas

Apesar das inúmeras políticas anti-indígenas detectadas pelo Conselho, o Cimi considera positiva a atuação da população indígena na luta pelos seus direitos. "A força e as lutas das comunidades indígenas têm se intensificado através das articulações entre povos e organizações indígenas, assim como as alianças desses povos com movimentos sociais e outros setores da sociedade nacional", diz a análise.

Exemplo disso foram as alianças dos povos indígenas com movimentos sociais do campo, particularmente com a Via Campesina, no caso da vitoriosa luta conjunta contra a invasão das terras indígenas Tupinikim e Guarani, no Espírito Santo, pela multinacional Aracruz Celulose. Outro exemplo são as mobilizações que têm obrigado a Fundação Nacional do Índio (Funai) a discutir a realidade fundiária e acenar na perspectiva de constituição de novos de Grupos de Trabalho de identificação e demarcação de terras indígenas.

O vice-presidente do Cimi informou que para o próximo ano já estão sendo planejadas novas ações de mobilização para fortalecer a luta dos povos indígenas. Segundo ele, os 450 missionários e missionárias que formam o Cimi no Brasil já estão orientados para ampliar a formação das comunidades indígenas no sentido de conscientizá-las da importância de se articular para defender seus direitos e exigir ações como a aprovação do Estatuto do Índio.